A minha história de vida

Daniel Pinto

Olá, o meu nome é Daniel Fernando Cardoso Pinto, tenho 30 anos e vivo em Ancede no concelho de Baião com a minha mãe e somos 3 irmãos.

Neste momento, frequento o Curso de Auxiliar de Serviços Gerais II em Baião e decidi partilhar com vocês a minha história de vida.

A minha infância foi passada em Areias Altas, uma localidade próxima da estação de comboios de Mosteiró. Era um meio pequeno, tinha poucas casas, mas muitas árvores de fruto e eu adorava subir as árvores para colher as frutas. Sempre fui um rapaz calmo e brincava sozinho por ser o mais velho, mas gostava das minhas aventuras.

Na minha juventude, passei a ter mais responsabilidade, fiz novos amigos na escola e em casa ajudava a tratar dos animais e a tomar conta dos meus irmãos mais novos.

O meu pai era pescador, pescava com redes no Rio Douro e, com ele, adquiri vários conhecimentos sobre a pesca. Ele também me ensinou que, se quisesse alguma coisa na vida, tinha de lutar por ela. Entretanto, mudei de residência e fui viver para Ancede onde concluí o 5.º ano de escolaridade.

Em Ancede ganhei gosto pelo Atletismo, porque tinha alguns amigos que praticavam essa modalidade numa associação local. Durante cerca de seis anos, participei em diversas provas de Atletismo na região norte do país, onde consegui ganhar vários troféus coletivos e individuais.

Sempre tive vontade de conquistar a minha independência e, após ter ficado retido no sexto ano, decidi sair da escola e começar a trabalhar. Tive várias experiências profissionais: ajudante de pichelaria, ajudante de cozinha e, mais tarde, servente na construção civil.

Com dezoito anos, decidi emigrar para Espanha e lá fui trabalhar na construção civil. Estive durante seis anos nesse país. Percorri várias cidades em trabalho e vinha a Portugal, aos fins-de-semana, com alguma frequência.

Aos 21 anos tirei a carta de condução e foi algo que me realizou pessoalmente e que me ajuda nas minhas deslocações diárias.

Tudo corria bem na minha vida, até me surgir um problema de saúde. Tinha 23 anos de idade, estava em Espanha a trabalhar quando senti falta de força numa perna e comecei a mancar. Um dos primeiros sintomas foram o formigueiro no pé e perna direitos, a parte que ficou mais afetada… Depois vieram ataques de ansiedade, fadiga muscular, falta de sono e os espasmos musculares. Após várias idas ao médico e vários exames, foi-me diagnosticada Esclerose Múltipla. Para quem não sabe…

… A Esclerose Múltipla ou nome científico (EM) é uma doença neurológica, crónica e autoimune, ou seja, as células de defesa do organismo atacam o próprio sistema nervoso central, provocando lesões cerebrais e medulares. Embora a causa da doença ainda seja desconhecida, a EM tem sido foco de muitos estudos no mundo todo, que têm possibilitado uma constante e significativa evolução na qualidade de vida dos pacientes. Os pacientes são geralmente jovens, em especial mulheres de 20 a 40 anos. A Esclerose Múltipla não tem cura e pode-se manifestar por diversos sintomas, como por exemplo: fadiga intensa, depressão, fraqueza muscular, alteração do equilíbrio da coordenação motora, dores articulares e disfunção intestinal e da bexiga

(Texto adaptado do site www.esclerosemultipla.info).

A doença obrigou-me a deixar de trabalhar, abandonar a Espanha e regressar para Portugal para viver com os meus pais. Foi-me atribuída uma incapacidade de 70% e, como não podia trabalhar e também não queria ficar parado, comecei a frequentar cursos de formação. Através deles completei o ensino secundário. Durante este tempo fui cuidador do meu pai. Que se encontrava dependente, prestando-lhe cuidados de higiene pessoal, alimentação e mobilidade, medicação e acompanhamento ao médico/exames. Em 2016 presenciei a morte do meu pai, foi um dia muito triste e nunca irei esquecer. Em casa passei a ser eu e a minha mãe porque os meus irmãos vivem fora. Um está emigrado e o outro vive com a namorada.

Para completar o vazio que vivia de tantas perdas, decidi dedicar-me a descobrir e fazer trabalhos manuais usando pedra e madeira.

Hoje, sinto-me estável com a minha doença, feliz com a vida que levo e entusiasmado com a formação que frequento na A2000 porque me sinto compreendido e apoiado. Pela primeira vez, tenho esperança num futuro mais risonho e quem sabe conseguir ficar integrado a trabalhar.

Para concluir, deixo-vos com um dos meus escritos…

Alvorada da calma, palavras singelas que me congelam a alma…

Na balança vejo a diferença do pesado para o leve… Eu devo tanto ao destino, mas quanto é que ele me deve?

Paro e, por segundos, viajo sem sair do sítio, entre lágrimas e sorrisos, sinto-me no paraíso…

Um paraíso onde posso sentir o cheiro da noite e nela viver o medo da solidão quando na noite me perder.

Onde olho a lua e, com um só olhar, sinto-a tão longe, mas quase a consigo tocar.

Sobre folhas rasgadas deste caderno, escrevo o que sinto e escrevo-o com sangue, mesmo que a caneta não tenha culpa.

Por vezes sinto-me sozinho, sem força para viver, sinto-me tão fraco que nem consigo adormecer.

Escrevo todas estas letras sem de nenhuma me esquecer e, se eu adormecer, sei que vou sonhar!

E, nesse sonho, encontrar o sonho de viver e de novo acordar!

Abrir os olhos e ver que a vida nos dá tudo e nós nem metade lhe damos…

Assim, acordo do sonho e rasgo o dia em busca do novo ser, onde espalho magia no ar, semeio ventos e colho tempestades, planto o sol e colho o arco-íris, sem nunca pensar em desistir de viver.

Daniel Pinto

Curso 2 – Auxiliar de Serviços Gerais II (Baião)

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