Entre o eu, o outro e a comunidade…

Nos tempos mais recentes, as sucessivas tempestades que Portugal tem enfrentado trouxeram limitações inesperadas a muitas pessoas. A mobilidade ficou comprometida, os acessos tornaram-se difíceis ou impossíveis, a comunicação foi interrompida e a autonomia diária ficou condicionada. Situações que geram insegurança, frustração e dependência, mesmo quando temporárias. Quando o ambiente deixa de estar preparado, basta pouco para que a participação no quotidiano se torne um desafio.

Para as pessoas com deficiência e incapacidade, estas barreiras não surgem apenas em dias de mau tempo. São vividas todos os dias. A dificuldade em circular, em aceder a serviços, em comunicar ou em participar plenamente na comunidade não depende de uma tempestade — depende de estruturas que, muitas vezes, continuam a não estar adaptadas. Aquilo que para muitos é uma exceção provocada por uma intempérie, para outros é uma realidade constante e, por vezes, permanente.

Em contextos de emergência, a Proteção Civil assume um papel essencial: antecipa riscos, remove obstáculos, cria condições de segurança e garante apoio a quem mais precisa. No plano social, é exatamente esse o papel que a A2000 desempenha todos os dias. Tal como a Proteção Civil atua quando o território se torna inacessível, a A2000 intervém quando a sociedade que comungamos – enquanto conjunto de seres pensantes – falha em garantir a acessibilidade e a inclusão.

A A2000 trabalha onde as “tempestades” são permanentes: nas barreiras físicas, sociais e comunicacionais que limitam a vida das pessoas com deficiência e incapacidade. O papel da A2000, enquanto agente social, é prevenir o isolamento, apoiar a autonomia, criar respostas sociais e devolver estabilidade onde existe vulnerabilidade. Não atua em regime de exceção, mas em permanência, garantindo que ninguém fica para trás quando o sistema que deveria funcionar, realmente, não funciona.

Não há melhor forma de compreender o que os outros sentem do que senti-lo na própria pele. As dificuldades temporárias causadas pelas sucessivas tempestades permitem perceber, ainda que por instantes, aquilo que muitas pessoas enfrentam diariamente. É essa consciência que torna evidente a importância de estruturas como a A2000, no caso do combate à exclusão e vulnerabilidade social.

As tempestades passam, mas as barreiras ficam. O que aprendemos nos dias difíceis só tem valor se nos levar a agir nos dias normais. O trabalho da A2000 lembra-nos que a inclusão não é uma resposta excecional, mas um serviço essencial, contínuo e estruturante para uma sociedade verdadeiramente justa.

João Martins, Estudante de Direito (Universidade de Coimbra)

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